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texto de derrotada, sem saber o que me derrubou sigo a marcha. quinhentos metros à esquerda, dois mil em frente. há situações que não valem a pena serem relembradas. não entendo o significado de tantas outras coisas. a almirante reis atinge o auge da sua depressão pelas oito e meia da manhã, ou um pouco mais cedo. lá vou eu, para cima e para baixo (ao contrário também). há pessoas que me olham, estranham-me a presença, um café tirado pelo senhor chinês, a senhora que come coisas estranhas os olhos ficam mais rasgados. sorri-me pelo cem e quatro (um euro e quarenta cêntimos). um tomás que acorda e chama pela tia. uma casa desabitada, sem olhos. fico parada na rua sem saber porquê. um brasileiro que pede cigarros. acabei de dar dois a uns russos, pelos outros pago eu, diz-me. que raio de justiça é essa. fica com o cigarro que estou a fumar. estou doente aviso-o, ele continua com uma lenga-lenga. és bonita e mais não sei o quê. isto devia ser tudo ao contrário, eu é que te devia ceder o cigarro, é a lei do cavalheirismo. (puta que pariu o cavalheirismo.já não se usa.o meu tio avô era cavalheiro e, traía a mulher.já não se usa porque já morreu). farto-me dos dias. o bocado mal já deixou de ser bocado. ouço atenta a história da luísa, 35 anos, suicidou-se. a tia ouviu-a morrer do outro lado da linha, sem saber onde ela morria. morreu num sitío onde foi feliz. penso. se um dia quiser morrer, qual é o sitío de devo escolher. procuro os cantos onde fui feliz. a única coisa que faço bem é o meu trabalho. esse e cuidar dos outros. estou tão farta de ambos. se as memórias são reinventadas, porque não posso eu fazer-me de outra. um dia acabo mal, mas a verdade, é que um dia acabamos todos. penso. não cobro nada a ninguém. a ninguém. mas cobram-me a mim. dizia ao pedro que ninguém espera nada de mim, mas a verdade é que me cobram. cobram-me quieta.mas desta vez é de vez.

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